Quando um relatório anual mente sem mentir

Quem trabalha em cultura sabe que um relatório anual não é apenas um documento administrativo. É, ao mesmo tempo, memória, narrativa e mecanismo de sobrevivência. Serve para prestar contas, justificar decisões, mostrar caminho. Mas também serve, inevitavelmente, para proteger fragilidades.

É por isso que muitos relatórios “mentem sem mentir”.

Os números estão certos, as atividades existiram, os indicadores foram cumpridos dentro do possível. Nada ali é formalmente falso. Mas falta o resto: o desgaste invisível, o tempo não financiado, as decisões tomadas em cima do prazo, as adaptações forçadas para fazer caber a realidade dentro do modelo de apoio.

E todos sabemos, do lado das entidades e do lado das instituições, que isso acontece com frequência.

Grande parte desta tensão nasce do modo como os sistemas de financiamento foram desenhados. Não são sistemas perfeitos; nenhum é. Trabalham com critérios, com expectativas, com a necessidade de comparar o que, muitas vezes, não é comparável. Do lado das equipas técnicas e dos júris há profissionalismo, seriedade e uma enorme carga de responsabilidade. Esse trabalho é real e merece reconhecimento.

Mas o modelo tem efeitos colaterais.

Quando a sobrevivência de uma estrutura depende de sucessivos ciclos de candidatura e renovação, o relatório anual transforma-se, inevitavelmente, num documento estratégico. Não conta apenas o que aconteceu; conta o que “faz sentido contar” para garantir continuidade.

E aqui entra a primeira camada de silêncio: tudo o que ficou por fazer porque não havia tempo, pessoas ou fôlego. Tudo o que foi remediado à pressa. Tudo o que foi alcançado à custa de precariedade pessoal.

Nada disso cabe bem num relatório.

Percebo o dilema. Os artistas e as equipas já vivem em condições frágeis; expor a totalidade dessas fragilidades pode parecer arriscado. Há medo de ser mal interpretado, de parecer incompetente, de perder apoio. Há também a sensação, muitas vezes justificada, de que o sistema não dispõe de mecanismos para acolher nuances.

Então escreve-se o relatório possível.

O que me preocupa não é a omissão pontual, é o ciclo que se instala. Ano após ano, relatos oficiais descrevem estabilidade onde há tensão permanente. Os documentos dizem continuidade; as pessoas vivem exaustão. E assim, lentamente, o sistema aprende a avaliar apenas o que consegue ver, atividade, números, metas, e não o custo humano e organizacional que os produz.

Quando um relatório “mente sem mentir”, ninguém está exatamente a enganar ninguém. Está-se, na verdade, a proteger um projeto, uma equipa, um percurso. Há empatia possível aqui, porque sei quanto esforço existe por trás dessas escolhas.

Mas também há uma consequência: torna-se mais difícil melhorar o sistema.

Se os relatórios não conseguem traduzir o que dói; o que falha, o que não é sustentável, o que fica por fazer, o debate público sobre políticas culturais avança com base numa imagem incompleta. E continuamos a reforçar a ideia de que os projetos “funcionam”, quando, por dentro, sobrevivem.

Não defendo relatórios confessionais, nem listas de frustrações. Defendo linguagem honesta e adulta, capaz de assumir complexidade sem dramatismo: o que correu bem, o que foi possível, o que só foi possível a grande custo, o que não devia continuar a depender de sacrifício.

Do lado das instituições, isso implica abertura para ler essa honestidade sem punição automática. Do lado das estruturas, implica coragem para narrar a realidade, não como derrota, mas como condição de trabalho que precisa de evolução.

Nenhum sistema de financiamento será perfeito. Mas pode ser mais justo se a informação circular com mais verdade.

Talvez um dia os relatórios deixem de “mentir sem mentir”, não porque as equipas mudaram de atitude, mas porque o sistema passou finalmente a reconhecer o que sempre esteve entre linhas.

Foto: © Stephen Dawson

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