Toda a programação é uma aposta. A diferença está em saber o que se está a arriscar e porquê.
Há um tipo de risco que os programadores conhecem bem e que raramente discutem abertamente: o risco de programar trabalho que o público ainda não conhece, de criadores que não têm ainda uma reputação que venda bilhetes, de formas que desafiam o que a sala espera. É o risco mais honesto que existe na programação, e é também o mais difícil de defender internamente, perante direcções, financiadores e conselhos de administração que medem o sucesso em lotações.
A pressão para programar o conhecido é real e compreensível. Uma estreia de um criador estabelecido traz garantias que uma aposta numa companhia emergente não traz. O nome vende, o histórico tranquiliza, a crítica já foi feita. Programar o conhecido é, do ponto de vista institucional, uma gestão de risco. Do ponto de vista artístico, é muitas vezes o risco maior.
O problema não é programar criadores consolidados, é programar apenas eles. Uma programação construída exclusivamente sobre reputações adquiridas fecha-se sobre si mesma. Deixa de ser um lugar de descoberta para se tornar um catálogo de confirmações. E o público, mesmo aquele que não articula esta percepção, sente a diferença.
O desconhecido tem um valor que o conhecido não pode ter: a possibilidade da surpresa genuína. Não a surpresa gerida de um criador que “experimenta algo novo”, mas a surpresa de um trabalho que ainda não foi enquadrado, que não tem ainda a moldura da reputação a dizer ao público como deve recebê-lo. Esse encontro, quando acontece, é um dos momentos mais vivos que uma programação pode proporcionar.
Como se decide quando o risco vale a pena? Não há fórmula, mas há perguntas que ajudam. A primeira é se o trabalho tem uma necessidade interna clara. Se existe uma razão artística para o que está a ser feito que vai além da vontade de fazer. A segunda é se o programador consegue defender a escolha com um argumento que não dependa do resultado, porque o resultado, por definição, ainda não existe. A terceira é se a programação como um todo cria um contexto em que este trabalho pode ser recebido, porque um espetáculo desafiante programado sem enquadramento é um espetáculo abandonado.
Há uma última consideração que raramente aparece nestas conversas. Programar o desconhecido é também um acto de responsabilidade para com o campo. Os criadores que hoje têm reputação foram, em algum momento, apostas de alguém. Alguém os programou antes de haver críticas, antes de haver prémios, antes de haver filas na bilheteira. Esse gesto, de confiar no trabalho antes de o mercado o confirmar, é o que mantém o campo vivo e em movimento.
O risco não é uma virtude em si mesma. Programar mal em nome da ousadia não serve ninguém. Mas uma programação que nunca arrisca não é uma programação corajosa que falhou. É uma programação que desistiu antes de começar.
Foto: © Brad Helmink







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