Durante muito tempo, contei espetáculos. Era uma forma de medir o ano… quantas estreias, quantos festivais, quantas viagens para ver trabalho fora de Lisboa. A partir de certo ponto deixei de contar com esse propósito. Os números continuavam a crescer, mas o que me interessava já não era a quantidade. Era o que a quantidade estava a fazer ao meu olhar.
Ver mais de cem espetáculos por ano não é um dado biográfico neutro. É uma prática que transforma a forma como se lê uma cena, uma luz, uma entrada em palco. Como qualquer prática intensa, tem efeitos que não se escolhem.
O primeiro é uma certa perda de inocência. Há um tipo de surpresa que só existe antes de se conhecer bem um campo. A primeira vez que se vê uma peça de teatro de objetos, a primeira vez que se assiste a uma performance de dança em que o corpo é levado ao limite, há uma abertura que é também ignorância. Com o tempo, essa abertura muda de natureza. Não desaparece, mas já não é ingénua. Passa a ser informada. O que se perde em espanto imediato ganha-se em capacidade de perceber o que está realmente em jogo.
O segundo efeito é a tolerância ao risco. Ver muito trabalho, incluindo trabalho que falha, ensina a distinguir o fracasso interessante do fracasso vazio. Um espetáculo que não resulta mas que estava a tentar algo genuíno diz-me muito mais do que um espetáculo bem-feito que não arrisca nada. Com o tempo, passei a desconfiar da perfeição técnica quando ela existe no lugar da necessidade artística.
O terceiro é mais difícil de nomear. Tem a ver com a atenção. Ver espetáculos com regularidade obriga a estar presente de uma forma que a vida quotidiana raramente exige. Uma hora e meia sem telemóvel, sem interrupções, com o corpo imóvel e o pensamento activo. Esse exercício repetido muda qualquer coisa na forma como se habita o tempo. Não só dentro da sala. Fora dela também.
O que mudou no meu olhar, concretamente? Presto mais atenção ao que não está em cena do que ao que está. Às decisões de ausência, às escolhas de silêncio, ao que um criador decidiu não mostrar. É aí que muitas vezes está o pensamento mais interessante. Aprendi também a separar o que me afecta pessoalmente do que funciona artisticamente. São coisas diferentes, e por vezes é fácil confundi-las.
Há uma última coisa que cem espetáculos por ano ensinam e que raramente se diz: a humildade perante o processo. O que se vê em duas horas é o resultado de meses de trabalho que nunca se vê. Essa consciência muda a relação com o juízo. Não o torna mais condescendente. Pode até torná-lo mais exigente. Mas retira-lhe a arrogância fácil de quem avalia sem imaginar o que custou chegar ali.
Continuo a ver espetáculos. Mas já não conto.
Foto: © Davide Ragusa | Unsplash







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