Ao longo dos anos, tenho ouvido a mesma frase repetida em muitos contextos: “o projeto não avançou porque faltou financiamento”. Sei que, muitas vezes, é verdade. Também já vi de perto o cansaço de quem trabalha meses sem garantia de apoio, a ansiedade dos prazos, a insegurança permanente. Tenho empatia profunda por quem insiste em criar mesmo quando as condições não acompanham.
Mas, com o tempo, fui percebendo outra coisa: em grande parte dos casos, o que falta não é apenas dinheiro; é tempo financiado de forma adequada.
Os modelos de apoio tendem a pagar momentos visíveis: a criação, a produção, a apresentação, a circulação. Pagam o resultado que se mostra ao público e que cabe num relatório. O que quase nunca é financiado é o intervalo entre esses momentos: pensar com calma, experimentar, errar, refazer, amadurecer equipas, estabilizar processos. É aí que o trabalho acontece, e é precisamente aí que muitos projetos ficam expostos.
Não digo isto de fora. Tenho acompanhado estruturas, artistas e organizações ao longo de vários anos. Vejo projetos que vivem permanentemente em suspensão, sempre “no próximo apoio”, sempre a reorganizar equipas, sempre a reconciliar urgência criativa com calendário administrativo. Não é falta de vontade, nem de talento. É uma estrutura que financia fragmentos, mas raramente financia continuidade.
É importante dizer também uma coisa que, por vezes, custa assumir: não existem sistemas perfeitos de financiamento. Há limitações orçamentais, critérios difíceis, decisões humanas sempre sujeitas a falha. E, apesar disso, acredito, porque o vejo, que muitos concursos são conduzidos por equipas competentes e dedicadas, que fazem o melhor possível dentro das condições existentes. O problema é maior do que as pessoas que trabalham no sistema.
Quando o tempo não é financiado, o risco desloca-se para os artistas e para as equipas. Muito trabalho passa a ser feito em modo invisível, não pago, naturalizado como obrigação moral ligada à “vocação”. E é aqui que também precisamos de cuidado: exigir condições melhores não é incompatível com reconhecer o esforço de quem gere os apoios. As duas verdades podem coexistir.
Financiar tempo não significa financiar inércia. Significa permitir que o trabalho artístico possa amadurecer sem viver sempre à beira do colapso. Significa aceitar que continuidade também é valor público.
Se começarmos a olhar para o financiamento a partir do tempo, e não apenas do resultado final, talvez possamos discutir o que realmente importa: como criar condições para permanecer, crescer e aprender, em vez de apenas aparecer e sobreviver de apoio em apoio.
PS – No próximo orçamento, cria uma linha explícita para tempo de preparação, reflexão e acompanhamento. Mesmo que não seja totalmente financiada, ela muda a negociação e o modo como o trabalho é percebido
Foto: © Kelly Sikkema | Unsplash







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