No setor cultural, fala-se muitas vezes de “projetos bem-sucedidos”. A expressão parece clara, mas raramente perguntamos o que significa, para quem significa, e a que custo foi alcançado esse suposto sucesso.
Na maioria dos casos, o sucesso é medido a partir do exterior: números de público, circulação, visibilidade mediática, menções em relatórios, métricas digitais que transformam impacto em gráficos. Tudo isto conta, mas conta apenas uma parte da história.
O que fica de fora é o interior do processo: o tempo gasto a mais, o trabalho invisível não remunerado, a exaustão das equipas, a instabilidade constante entre projetos, a sensação de que o resultado final correu bem… mas deixou pouca margem para continuidade. Há projetos que “correm bem” por fora e, por dentro, deixam desgaste acumulado.
Grande parte deste mito nasce da forma como o sistema está estruturado. Candidaturas, relatórios, plataformas digitais e comunicação institucional pedem narrativas lineares: objetivos, atividades, indicadores, resultados. Tudo tem de caber numa história coerente, mesmo quando a realidade foi feita de desvios, improvisação e sobrevivência.
Os próprios artistas e equipas, muitas vezes por necessidade, aprendem a contar o projeto em modo “sucesso”. Não é manipulação: é uma tentativa legítima de proteger trabalho futuro. Ninguém quer arriscar o próximo apoio revelando fragilidades que fazem parte de qualquer processo criativo.
O problema surge quando essa linguagem substitui a experiência real. Quando o setor passa a acreditar nas suas próprias versões simplificadas. Quando o projeto bem-sucedido deixa de ser um espaço de aprendizagem e passa a ser um modelo a repetir, mesmo que tenha sido, por dentro, insustentável.
Isto não significa desvalorizar conquistas reais. Há projetos que transformam pessoas, comunidades e práticas artísticas. Há equipas que conseguem, com poucos meios, gestos extraordinários. Mas olhar para o sucesso com mais cuidado também é uma forma de respeito pelo trabalho: permite reconhecer limites, custos e condições que precisam de mudar.
Talvez fosse mais útil falarmos menos de “projetos bem-sucedidos” e mais de projetos que conseguem permanecer no tempo sem se destruir por dentro. Esse é um outro tipo de sucesso. Mais discreto, menos mediatizável, mas muito mais estruturante para o setor.
Foto: © Daria Nepriakhina | Unsplash







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