O custo invisível de dizer que sim

No setor cultural, dizer “sim” é muitas vezes o ponto de partida. Sim a um convite, a uma colaboração, a um projeto com condições imperfeitas, a uma oportunidade que pode não voltar. O “sim” abre portas, cria relações, mantém o trabalho em movimento. Mas raramente se fala do seu custo, sobretudo quando esse custo não é imediato nem visível.

Dizer “sim” tem quase sempre um preço diferido. Não aparece no orçamento, não entra nos relatórios, não é contabilizado como risco. Manifesta-se mais tarde, na acumulação de tarefas, na compressão do tempo, na dispersão de energia, na dificuldade em manter coerência entre projetos. Um “sim” isolado pode parecer inofensivo; uma sequência de “sins” pode tornar-se insustentável.

Parte do problema está na forma como o setor funciona. As oportunidades são intermitentes, os convites surgem sem regularidade, os financiamentos são incertos. Recusar pode significar desaparecer temporariamente do radar. Aceitar torna-se, por isso, uma estratégia de sobrevivência. Não é uma questão de falta de critério, é, muitas vezes, uma resposta racional a um contexto instável.

Mas o efeito acumulado dessa lógica é exigente. Projetos que não estavam no plano inicial começam a ocupar espaço. Colaborações que pareciam pontuais tornam-se prolongadas. A agenda enche-se sem que haja, necessariamente, um aumento proporcional de recursos ou de tempo. O resultado é uma sensação difusa de estar sempre a trabalhar, mas nem sempre a avançar.

Há também um custo menos visível: o da coerência. Quando se aceita demasiado, torna-se mais difícil perceber o que se quer realmente fazer. As escolhas passam a ser reativas, orientadas pelo que aparece e não por uma linha de trabalho definida. A identidade artística ou programática dilui-se, não por falta de intenção, mas por excesso de solicitações.

Dizer “sim” tem ainda um impacto relacional. Equipas que já trabalham no limite absorvem novos compromissos sem condições adicionais. A sobrecarga distribui-se de forma desigual, muitas vezes invisível, gerando desgaste e tensão. O “sim” de um pode tornar-se o esforço silencioso de vários.

Isto não significa que o “não” seja simples. Recusar implica risco: perder visibilidade, fragilizar relações, deixar passar oportunidades que poderiam ser relevantes. Em muitos casos, o “não” não é uma escolha confortável nem sequer possível. Mas talvez o problema não esteja em dizer “sim” ou “não” de forma isolada, esteja na ausência de critérios claros para decidir.

Dizer “sim” deveria implicar uma pergunta prévia: o que é que este compromisso substitui? Porque nenhum “sim” é neutro. Ocupa tempo, energia, atenção. E tudo isso é finito. Tornar visível essa substituição é uma forma de recuperar alguma margem de decisão.

Num setor onde a escassez é estrutural, a gestão do “sim” torna-se uma competência central. Não para reduzir ambição, mas para proteger o que realmente importa. Porque, a longo prazo, o custo invisível de dizer sempre “sim” pode ser precisamente a perda daquilo que justificava dizer “sim” em primeiro lugar.

Foto: © Henry Schneider | Unsplash

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