Erros comuns em candidaturas à DGArtes, e como evitá-los

Já li muitas candidaturas à DGArtes. Como júri, como consultor, como alguém que acompanhou organizações em processos de candidatura ao longo de anos. E há erros que se repetem com uma regularidade que deixou de me surpreender. Não são erros de incompetência, são erros de perspectiva. A boa notícia é que se evitam.

O erro mais frequente é escrever para dentro. A candidatura é redigida como se o júri já conhecesse a organização, o seu historial, o seu contexto. Usam-se siglas sem explicação, referem-se projectos anteriores sem os situar, assume-se familiaridade que não existe. Um júri lê dezenas de candidaturas em poucos dias. O que não está explicado não é inferido, é ignorado.

O segundo erro é a confusão entre actividade e projecto. Descrever o que se faz, quantos espetáculos, quantas sessões, quantos participantes, não é o mesmo que argumentar porque é que esse trabalho merece apoio público. A DGArtes financia projectos com relevância artística e cultural demonstrável, não agendas de trabalho. A candidatura tem de responder à pergunta “porque é que isto importa?” e não apenas “o que vamos fazer?”.

O terceiro erro é o orçamento desalinhado com a narrativa. É comum encontrar candidaturas em que o texto descreve um projecto ambicioso e o orçamento não sustenta essa ambição. Ou o inverso, um orçamento elevado para um projecto mal justificado. O júri lê os dois documentos em paralelo. A coerência entre eles é, ela própria, um argumento.

O quarto erro é subestimar os critérios de avaliação. Cada programa da DGArtes tem critérios públicos e ponderações definidas. Muitas organizações candidatam-se sem os ler com atenção. O resultado é uma candidatura que pode ser artisticamente sólida mas que não responde ao que está a ser perguntado. Não se trata de formatar o projecto para os critérios. Trata-se de garantir que a candidatura torna visível o que o projecto já tem.

O quinto erro é deixar a candidatura para o fim. A escrita de uma boa candidatura é um processo de clarificação do próprio projecto. As organizações que deixam a redacção para a semana anterior à entrega chegam a essa semana sem terem resolvido perguntas fundamentais: sobre os objectivos, sobre os parceiros, sobre a sustentabilidade. A candidatura fica a pagar esse adiamento.

Há um erro transversal a todos estes: a linguagem. Candidaturas escritas em jargão sectorial excessivo, com frases longas e passivas, com adjectivação que substitui o argumento, perdem força independentemente do mérito do projecto. Clareza não é simplificação. É respeito pelo tempo de quem lê.

Uma candidatura à DGArtes não é um formulário a preencher. É um argumento a construir. A diferença entre as que avançam e as que ficam pelo caminho raramente está no projecto em si. Está na capacidade de o tornar legível, coerente e convincente para quem o lê pela primeira vez.

Foto: © Glenn Carstens-Peters

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