Curadoria não é gosto pessoal

Curadoria não é gosto pessoal. Parte de critérios, contexto e responsabilidade. Quem cura não escolhe “o que gosta”. Seleciona o que faz sentido para um programa, para um público e para um determinado momento histórico e cultural. Isso implica visão, coerência e uma leitura informada do campo artístico, das suas dinâmicas, tensões e ausências. Curadoria exige distanciamento crítico: é preciso discernir entre preferência individual e relevância artística, social ou conceptual.

O gosto pode servir de ponto de partida, nunca de argumento final. A curadoria trabalha com diversidade de linguagens, contrastes, fricções e perguntas que incomodam ou abrem novas perspetivas. Procura obras que dialoguem entre si, que constroem sentido em conjunto e que ampliam o debate cultural. Um programa curatorial não se mede pelo alinhamento com o universo pessoal do curador, mas pela capacidade de gerar reflexão, leitura crítica e experiência significativa para diferentes públicos.

Ser curador é tomar decisões fundamentadas: estudar, comparar, contextualizar, justificar. É conhecer os artistas, os processos, os territórios de prática, as implicações políticas e simbólicas das escolhas. É construir uma narrativa, não montar uma lista de preferências. Pressupõe responsabilidade ética na representação, na inclusão, na atenção às desigualdades de visibilidade e acesso.

Quando se confunde curadoria com gosto pessoal, perde-se rigor, diversidade e pertinência cultural. Reduz-se o ecossistema artístico a um espelho individual e empobrece-se o diálogo coletivo. Curadoria é trabalho crítico, intelectual e relacional. Não é capricho, nem exercício de vaidade, mas um compromisso com o pensamento e com a comunidade artística.

Foto: © redcharlie | Unsplash

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