Como se constrói uma programação coerente sem orçamento ilimitado

Existe um equívoco persistente sobre o que torna uma programação cultural interessante. O equívoco é que a qualidade depende sobretudo dos recursos disponíveis. Que com mais dinheiro se faz melhor programação, e que sem ele se faz o que se pode. Há verdade nisso, mas é uma verdade parcial que esconde o que realmente importa.

As programações mais coerentes que conheço não são necessariamente as mais bem financiadas. São as que têm uma ideia clara do que estão a fazer e porquê. Essa clareza não se compra. Constrói-se. E é o único activo que um programador com recursos limitados tem sempre disponível.

A coerência de uma programação não vem da soma das partes. Vem da relação entre elas. Um festival pequeno que apresenta cinco espetáculos com um fio condutor claro comunica mais do que um festival grande que apresenta vinte sem nenhum. O público sente essa diferença, mesmo quando não a consegue nomear. Entra num programa e percebe, ou não percebe, que há alguém a pensar do outro lado.

O primeiro trabalho de um programador com orçamento limitado é, portanto, a definição. Não “o que posso apresentar?” mas “o que quero dizer com o que apresento?” São perguntas diferentes, e a segunda é muito mais difícil. Exige uma posição: estética, política, contextual. Exige saber a quem se fala e o que se quer que essa conversa produza.

A partir dessa definição, o orçamento deixa de ser o problema central e torna-se uma variável de gestão. Não desaparece. Continua a limitar opções, a forçar escolhas, a exigir criatividade na negociação e nas parcerias. Mas já não determina a identidade do programa. Essa identidade precede o dinheiro.

Há uma consequência prática disto que raramente se discute: a coerência permite fazer menos com mais impacto. Um programador que sabe exactamente o que procura não precisa de ver tudo. Precisa de ver o que serve o seu projecto. Essa selectividade, que pode parecer uma limitação, é na prática uma vantagem. Cria foco, constrói reconhecimento, gera fidelidade. O público de uma programação coerente não é necessariamente maior, mas é mais comprometido.

O orçamento ilimitado, quando existe, tem o seu próprio perigo: a tentação de incluir. De dizer sim a muita coisa porque se pode, de construir um programa tão amplo que perde definição. Já vi programações ricas em recursos e pobres em ponto de vista. A abundância não protege da incoerência. Por vezes até a favorece.

A pergunta que um programador deve fazer regularmente não é “o que posso acrescentar?” mas “o que posso retirar sem que o programa perca sentido?” O que sobra depois dessa operação é o essencial. É aí que está a voz.

Construir uma programação coerente sem orçamento ilimitado é, no fundo, um exercício de honestidade. Sobre o que se sabe fazer, sobre o que se quer dizer, sobre quem se quer na sala. Essa honestidade tem um custo. Obriga a recusar, a escolher, a defender opções que nem sempre são populares. Mas é ela que transforma uma lista de espetáculos numa programação com sentido.

Foto: © Smitty

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