Há uma tensão que atravessa o setor das artes performativas sempre que o tema do digital entra em cena. De um lado, a pressão para estar presente, ser visível, crescer. Do outro, o receio legítimo de que a mediação tecnológica esvazie aquilo que torna o teatro, a dança ou a música ao vivo experiências insubstituíveis: a presença, o risco, o acontecimento irrepetível.
O problema é que muitas organizações culturais resolvem esta tensão de forma apressada. Ou ignoram o digital por princípio, como se a resistência fosse já uma posição artística, ou aderem sem critério, publicando conteúdos porque “é preciso estar nas redes”, transmitindo espetáculos ao vivo porque “toda a gente faz”, construindo arquivos digitais que ninguém consulta.
Nenhuma das duas posições serve o trabalho.
O digital, bem usado, não compete com a experiência presencial. Serve-a. A questão não é se uma organização deve ter presença online, mas para quê e como.
Há três usos que me parecem genuinamente úteis.
O primeiro é a contextualização. Uma peça de dança contemporânea que chega ao palco carrega meses de investigação, de escolhas dramatúrgicas, de conversas entre criadores. Esse processo raramente é visível para o público. O digital é o espaço certo para o tornar acessível, não como spoiler, mas como convite. Um texto do encenador sobre o ponto de partida, um excerto de ensaio, uma lista de referências: estes conteúdos não substituem o espetáculo, preparam o olhar para ele.
O segundo é a memória. As artes performativas têm um problema estrutural: desaparecem. Uma estreia em fevereiro pode ser completamente inacessível em outubro. O digital permite construir um arquivo que não é apenas institucional, é uma forma de dar continuidade ao trabalho para além da data de encerramento. Feito com cuidado, um arquivo digital pode ser tão artisticamente significativo quanto um programa de sala bem concebido.
O terceiro é o alcance. Há públicos que nunca vão entrar num teatro por razões geográficas, económicas ou simplesmente por falta de hábito. Não é realista, nem desejável, tentar substituir a experiência presencial para quem já a procura. Mas para quem ainda não chegou, o digital pode ser a primeira porta. Uma boa entrevista com um criador, um documentário sobre o processo de criação, uma conversa publicada depois de uma estreia: estes formatos têm o potencial de criar relação com pessoas que de outra forma nunca teriam contacto com o trabalho.
O que o digital não pode fazer, e aqui está a linha que importa não cruzar, é simular o que só acontece em presença. A transmissão ao vivo de um espetáculo não é um espetáculo: é outro objeto, com outras regras, que exige outras escolhas. Tratá-la como equivalente é prejudicar os dois.
A pergunta que qualquer organização cultural deveria fazer antes de qualquer decisão digital não é “como chegamos a mais pessoas?” mas “o que queremos que estas pessoas entendam sobre o nosso trabalho?” A resposta a essa pergunta determina tudo o resto: os formatos, a frequência, o tom, os canais.
O digital não ameaça a essência das artes performativas. A falta de pensamento sobre como usá-lo, essa sim, ameaça.
Foto: © Unsplash







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