Durante séculos, a resposta a esta pergunta foi relativamente clara. Decidiam os programadores, os directores artísticos, os críticos, os editores. Pessoas com nome, com posição, com um ponto de vista identificável. Podia concordar-se ou não com as suas escolhas, mas sabia-se de onde vinham. A curadoria tinha rosto.
Hoje a resposta é mais opaca. Uma parte crescente do que as pessoas descobrem em cultura, um filme, um álbum, um espectáculo, um livro, chega-lhes através de sistemas de recomendação que optimizam para o envolvimento, não para o valor. O algoritmo não tem gosto. Tem objectivos. E os seus objectivos raramente coincidem com os de um programador ou de um crítico.
Isto não é necessariamente novo. A indústria cultural sempre teve lógicas comerciais que moldaram o que chegava ao público. O que é novo é a escala e a invisibilidade. Quando um director de programação escolhe um espetáculo, essa escolha é pública, defensável, contestável. Quando o Instagram decide que um determinado tipo de conteúdo cultural vai aparecer no feed de milhões de pessoas, essa decisão não tem autor visível, não tem argumento, não pode ser debatida.
O problema não é que os algoritmos existam. É que estão a ocupar um espaço que antes pertencia à curadoria humana, e a fazê-lo sem que a maioria das pessoas se aperceba da substituição.
Um programador de teatro que constrói uma temporada está a fazer uma afirmação sobre o mundo. Está a dizer: isto importa, isto merece atenção, este trabalho tem relevância agora. Essa afirmação pode ser discutida. O algoritmo não afirma nada. Optimiza. E a optimização para o envolvimento tende a favorecer o familiar sobre o desafiante, o confirmado sobre o experimental, o que já funciona sobre o que ainda não foi tentado.
A consequência mais silenciosa disto é o estreitamento do campo do possível. Não porque o trabalho difícil ou arriscado deixe de ser feito. Continua a ser feito, em salas pequenas, em contextos frágeis, com apoios precários. Mas porque a distância entre esse trabalho e o público que poderia interessar-se por ele aumentou. O intermediário que antes podia ser um crítico entusiasta ou um programador curioso é agora, cada vez mais, um sistema que não sabe o que é a surpresa.
O que fazer com isto? Não há resposta simples, e a nostalgia não serve. Não se volta a um tempo em que a curadoria humana era o único filtro, nem seria desejável, porque esse tempo tinha os seus próprios problemas de exclusão e de poder.
O que se pode fazer é tornar a curadoria humana mais consciente de si mesma. Mais explícita nos seus critérios, mais clara nos seus argumentos, mais disposta a explicar porque é que uma escolha foi feita e o que se espera dela. Num mundo em que o algoritmo decide em silêncio, a voz do programador, do crítico, do mediador cultural ganha um valor que talvez nunca tenha tido tanto: o de ser reconhecidamente humana.
A pergunta não é se os algoritmos vão continuar a decidir o que as pessoas veem. É se vai haver, ao lado deles, vozes com autoridade suficiente para propor outra coisa.
Foto: © Glenn Carstens-Peters







Deixe um comentário